quinta-feira, 9 de junho de 2011

os sapatos de cabedal

Dois sapatos de cabedal estavam deitados junto à estrada. Um de pé, outro de lado.
"Que miséria", pensou a senhora de sessenta anos, passando de cabelo branco bem penteado, anel de brasão no dedo mindinho, solitários discretos nos lóbulos das orelhas.
"Que horror, será que alguém morreu aqui?", pensou a rapariga apressada, laptop ao ombro, tailleur da Zara do verão passado.
"Que diabo, se não houvesse tanta gente, entravam-me já nos calcantes", disse o homem de mais de quarenta, a garrafa na mão, os passos tropeçando no passeio.
"Este país está uma desgraça", desdenhou o executivo de pernas musculadas, iPOD 63GB.
Dois sapatos de cabedal estavam deitados junto à estrada. Um de pé, outro de lado.
Debaixo dos jacarandás, mesmo ali ao lado, um casal de adolescentes. Ele, descalço, apatetado pela paixão. Ela, louca de tanto a rir com a vitória.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

    "SEXTO SENTIDO"

Se eu fosse um mouro,
Em seu castelo erguido
Na Serra que da Lua
Tem o nome e o sentir,
Gritando, lá do alto,
Sortilégios esotéricos
Ao povo Luso que a Serra invade,
Com sede de terra e de poder,
Para esse espaço a sangue,
Ferro e fogo conquistar...

Se eu fosse um nigromante,
Feiticeiro da Serra da Lua,
Qual mago que um tambor
Rufando enche de glória,
Senhor de Áfricas
Sem fim ou sem princípio,
Soberano dos vivos
E dos mortos evocados,
Dono da negra magia do Passado,
Podendo, com meus dons,
Fazer parar as leis da guerra,
Que os continentes
De todo enfeitiçaram...

Se eu fosse o vento
Que mais forte sopra,
No altivo castelo da mourama,
Na noite tempestiva de invernos
Perdidos entre lareiras
Que as memórias não consomem,
Por mais alto
Que arda a chama,
Por mais calor
Que a lenha produza...
Imperador de tufões,
De vendavais,
Rei do sopro
Que não se esgota nunca,
Por muito que me venha zumbir
Dentro da alma,
Sussurrando-me aos ouvidos
Desesperos de infinito,
Que parecem competir
Com a velha eternidade...

Se eu fosse a dança,
Que dança e não balança,
Em sete véus mágicos de moura,
Em movimentos de ondulante ritmo,
Marcado em cada passo,
Em que a forma acompanha o som,
Como se a perfeição
Estética da vida
Pudesse traduzir a festa
Da evidente humanidade
Ou a música da alegria da vitória,
Um grito mudo de gozo e de prazer,
Que ao Homem faz viver
E reviver no espaço e tempo,
Qual passo de baile
A celebrar eventos mil
Mais do que outros já havidos...

Se eu fosse a bela Primavera,
Terna de ambientes,
Florida nos caminhos,
Altiva no serrado,
Nesse Castelo dos Mouros
Amada a cada volta,
A cada curva,
Destemida e sem receio
De um dia perder a liberdade...
Enfim, uma estação solidária,
Realizada de viva esperança,
Cega de perfumes e odores
Em cada berro de vida
Que me cerca e me transborda...

Se eu fosse, por fim,
A Fortaleza Árabe,
Em Sintra altiva e imponente,
Ou simples mato,
Uma terra de medos,
Mistérios e surpresas,
Fonte de vida,
Abrigo de animais,
Floresta tropical,
Savana, bosque,
Ou ainda até,
E porque não,
Selva africana
Ou charneca em flor...

Se eu fosse tudo isto
E muito mais,
Diria,
Como direi agora,
A mesma coisa simples
E pequena:
"- Guarda só pra ti
Os meus segredos,
Meu amor,
E vive para que eu possa viver,
Pleno de ti,
Que sem ti nada é poder!...

Espera-me nesta vida
E na outra se a houver,
Com os teus braços abertos
Por carinhos,
Enfeitada de sedas e perfumes,
Cetins, veludos
E linhos de encantar
Ou nua apenas,
Qual odalisca que sem esforço
Conquista o temível sultão...
Mas mais que tudo
Ama o vagabundo dos limbos,
Ama Haragano, O Etéreo,
Este eu, cujo discurso
Se perde nas palavras,
Mas que este coração a ti doou,
Porque tu és
O meu sexto sentido!"

Haragano, O Etéreo in Achas para um Vagabundo

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Lebre e o Cágado

A Lebre Esperteza desafia Cágado para a corrida aos rendimentos, apostando no mercado de valores mobiliários.
Cágado conservador aceita a corrida, mas aposta nos certificados de aforro.
O árbitro Cavaco emite aviso de sobrevalorização do mercado de acções, fazendo cair os valores investidos.
O investimento e respectivos rendimentos de Lebre Esperteza ficam a zero, zero, nada.
E como Lebre não sabe nadar, afoga-se.
Cágado esse, ainda vive dos rendimentos.

escre-ver

Escrevo como vejo. Não consigo escrever se não vejo. Mas mesmo o que não se consegue ver, eu vejo. Por isso escrevo. E descrevo. Talvez isso explique porque sou como sou.

Poema por Jaqueline Amaro

POEMA DE AMOR - JORGE DE SOUSA BRAGA

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Lebre a Vagarosa por Manuela



No mato, todos lhe conheciam esta faceta irritante. Passava os dias a desafiar os animais com os maiores disparates, só pelo prazer de os irritar. E os intentos da lebre eram sobejamente alcançados. Todos corriam dela a sete patas; evitavam-na como podiam. Bem; todos, todos, não. A Vagarosa não lhe dava importância, e respondia-lhe sempre em tom cordial, fazendo de conta não perceber as intenções zombeteiras. Mesmo no momento da lebre a desafiá-la para a corrida ao longo do trilho dos patos, caminho feito por entre árvores frondosas, e terminando ao pé do lago. Bem dito, bem feito. Foi a Matreira, raposa de nascença, nomeada árbitro do desafio. Competia-lhe garantir a partida de ambas exactamente ao mesmo tempo, e registar a primeira chegada.
No dia e hora marcados, além das concorrentes e da Matreira, todo o mato comparecera em peso para assistir à derrota certa da Vagarosa. Como podia ser tão tonta?
A lebre viera com o melhor fato de treino e os ténis mais leves. Não convinha desapontar os fãs, no caso de os haver. A Vagarosa também comparecera antes do tempo, pois saíra de casa com três horas de antecedência.
Ficaram na linha de partida à espera do sinal. A Matreira apitara com toda a força; o momento era solene e ficara devidamente registado nos tímpanos dos espectadores. A lebre desatara a correr com velocidade desnecessária, deixando a Vagarosa a mastigar poeira. Ao fim dos primeiros cem metros, a lebre olhara para trás, mas nem sinal da lenta companheira. Então, permitira-se rir com gosto, antecipando a gabarolice da proeza.
Com tal avanço, resolvera então descansar à sombra do pinheiro; este assinalava a terça parte do total a percorrer. Até podia dormir a sesta, pensara. Teria à vontade hora e meia pela frente sem sobressaltos. E se o pensara, melhor o fizera. Dormira sossegada, e sossegada estivera no momento da Vagarosa passar pelo pinheiro; nem dera por nada.
Acordara sobressaltada sem saber bem onde estava. Mal se lembrara, correra como jamais correra na vida, em direcção à linha de chegada. A Matreira já lá estava, e, maldição!, a Vagarosa também. E com a medalha ao peito.

                                   
                                                                                                                        Manoela Almeida

Telegrama de Isabel

menina Maria José – primeiro andar do prédio amarelo
inexplicáveis STOP
em que não há palavras que apresentem ou representem STOP 
aquilo que sinto STOP
por favor não me ache ridículo STOP
há momentos assim STOP
respeitosamente, sr. António, o serralheiro.
mas simplesmente, amo-a STOP
quando entrevejo a sua presença à janela STOP